Influência Geracional
Toda geração carrega marcas das ações de gerações anteriores, contudo, possuem a liberdade de fazerem novas escolhas e a responsabilidade diante de suas próprias atitudes.
Na minha experiência pastoral em salas de aconselhamento, pude presenciar isso diversas vezes: muitas pessoas lidam com problemas, traumas, bloqueios emocionais que afetam de forma contundente a sua realidade e na maioria das vezes não sabem identificar qual é a origem dessas questões.
Ao longo do tempo, com a prática e muito estudo, fui aprendendo a identificar padrões na vida das pessoas. Esses padrões apontam normalmente para problemas que possuem raízes no passado das pessoas e no grande impacto que as suas experiências com seus pais durante toda a sua formação exerce sobre a sua realidade.
A maior parte dos paradigmas que temos na vida foram formados pelos nossos pais. Sejam de forma intencional ou não. A maneira como você lida com dinheiro, com seus relacionamentos, com o trabalho, com espiritualidade, e todas as demais áreas da sua vida, estão diretamente relacionados com a maneira em que os seus pais te educaram. Nem sempre essa educação foi de forma intencional, pelo contrário, boa parte nos foi transmitida através do exemplo, das experiências, das frases soltas e demais situações em que os pais nem percebiam estar ensinando.
Um dos principais exemplos bíblicos de influência geracional é o do Rei Davi.
Não quero atropelar a história neste capítulo, pois trataremos mais à frente sobre esta narrativa, mas os erros de Davi influenciaram diretamente a história de vida de toda a sua família. A vida familiar do “homem segundo o coração de Deus”, foi um desastre. É evidente que cada um dos seus filhos fez suas próprias escolhas, mas o mau exemplo e a negligência de Davi na criação de seus filhos, impactaram diretamente no destino de cada um deles.
O IMPACTO DOS PAPÉIS NÃO CUMPRIDOS
O primeiro e principal impacto de influência geracional, já tratado anteriormente aqui no livro, é o dos papéis não cumpridos. Quando uma pessoa não tem na sua formação uma figura de paternidade ou maternidade que cumpra o seu papel de forma plena, isso implicará de forma significativa na formação da personalidade.
Temos que lembrar que foi Deus quem planejou e criou a família. Ele foi perfeito no modelo, não faltando nada. Sei o impacto desta afirmação diante da realidade que vivemos na atual geração. O número de famílias que sofreram ruptura, separações e divórcios é muito grande. Algumas pessoas ficam ofendidas ou, no mínimo, na defensiva, toda vez que eu falo sobre a importância de cada um dos papéis na formação de uma família. Por isso, preste atenção nesta história:
Certa vez, fui convidado para palestrar e compartilhar sobre o tema família, onde acabei trazendo dentro da minha fala este ponto específico da importância de todos os papéis. Ao encerrar a palestra, uma mãe me procurou com os olhos cheios de lágrimas e um certo semblante de indignação e me confrontou dizendo: “Quer dizer que meu filho está destinado a uma vida de sofrimento por culpa do pai que nos abandonou, e eu que faço de tudo para criá-lo sozinha, fazendo o papel de pai e de mãe, estou de mãos amarradas e não posso fazer nada?”.
Ela estava realmente indignada com a minha parte da palestra, onde eu afirmei que inevitavelmente uma pessoa que não teve um dos papéis em sua formação sofrerá o impacto desta falta. Enquanto ela falava, em meu espírito eu orava pedindo discernimento de Deus e compaixão por aquela história. Foi quando percebi que ela não estava brava comigo, estava apenas ferida e cansada por ter que lidar com o desafio de formar o seu filho diante do abandono do seu marido.
Com todo o amor do meu coração, eu olhei em seus olhos e lhe disse: “Você nunca será mãe e pai do seu filho ao mesmo tempo, porque você não é um homem.”.
Ela arregalou os olhos não entendendo bem o que eu estava dizendo, pois, acredito, que ela esperava alguma palavra mais confortante de minha parte. Continuei: “Essa é a boa notícia. Você nunca será pai do seu filho e nem precisa ser. O seu filho pode ter o melhor pai do mundo e nisso, sim, você pode contribuir”.
Agora é que ela não estava entendendo mais nada. Imagino que ela pensou que estava me referindo há algo no sentido de que ela tivesse que encontrar um marido, ou coisa parecida. E foi aí que concluí: “você deve instruir, conduzir e inspirar o seu filho a ter um relacionamento pessoal e real com Deus, onde o próprio Deus, o pai perfeito, suprirá todas as necessidades espirituais, emocionais e de caráter que seu filho precisa para se tornar um homem de verdade. A falta de um pai pode ser a melhor oportunidade para alguém encontrar em Deus uma paternidade que não se compara ao que o melhor pai desta terra possa oferecer”.
Enquanto terminava de falar, a mulher estava em lágrimas e, de alguma forma, o Espírito Santo começou confortar o coração dela, que já conhecia a Jesus e sabia que o que estava dizendo era a verdade de Deus para a história da sua família.
Naquele momento, o Espírito Santo me usou para poder despertar no coração daquela mulher esperança e discernimento sobre o que ela deveria fazer em relação ao seu filho.
Eu realmente acredito no que falei para essa mulher e você acabou de ler aqui.
Porém, essa é uma realidade que só pode ser vivida e experimentada através do Novo Nascimento e de uma nova experiência de paternidade com Deus através de um relacionamento íntimo, pessoal e profundo com o Pai.
Mas de forma natural, é inevitável que a ausência de um dos papéis ou o mau comprimento deles, implicará em consequências na formação de uma pessoa.
Inclusive, algumas pessoas, mesmo após terem conhecido a Jesus, mas não se aprofundam num relacionamento com Deus para tratar essas questões de identidade, acabam vivendo a consequência da orfandade e o impacto dessas lacunas por toda a sua caminhada cristã.
- IMPACTO DA PATERINIDADE
Dentre todas as características do homem bíblico que já tratamos na meditação de cabem ao pai: proteção, provisão e propósito. 1.
Proteção (efeito da falta: insegurança). É no pai que os filhos devem encontrar a sua primeira referência de proteção na vida. Os filhos necessitam desse senso de segurança, especialmente quando são crianças. Os filhos precisam saber e sentir, que diante dos perigos e riscos da vida, alguém os protegerá. Que eles não estão totalmente vulneráveis aos perigos, e que se caírem ou forem empurrados haverá alguém que os sustente. Seja dos valentões no intervalo da escola ou daquele vizinho abusador que tentou um abuso íntimo, os filhos precisam estar seguros de que se acionarem seus pais eles encontrarão proteção.
Quando os filhos não têm uma figura paterna que os protege, eles crescem e se tornam pessoas inseguras, arredias, que estão sempre na defensiva, e têm dificuldade de confiar nos outros. É como se eles pensassem que estão sozinhos nas batalhas desta vida, que não há ninguém por eles, e que só podem contar consigo mesmos. Meninos costumam se tornar valentões e briguentos, meninas costumam crescer com uma grande dificuldade de confiar nos homens. 2.
Provisão (efeito da falta: escassez): O segundo ponto essencial da paternidade é a provisão. Por muito tempo, desde que a criança vem ao mundo, ela não conseguirá ter noção de que os suprimentos que ela precisa para vida, como comida, teto, água, precisam ser provisionados de alguma forma. Por bastante tempo elas não sabem como, só sabem que os seus pais garantem isso.
Um pouco mais grandinhas, quando começam a perceber um pouco melhor a realidade e discernir com um pouco mais de clareza as questões do dia a dia de uma família, as crianças já começam a entender que há uma fonte de provisão. Para uma criança que foi ensinada a ver no pai a figura de autoridade e liderança da casa, diante de uma situação de escassez, é inevitável que ela atribua a ele a responsabilidade pela dor de não ter. Não estou falando de desejos e vontades supérfluas, mas do suprimento básico de uma família, como: alimentação, energia elétrica, água e saneamento básico, uma casa para morar, etc.
A maioria dos adultos que conheci com bloqueios emocionais de escassez, sofreram experiências quando crianças da falta de coisas essenciais e seus pais não resolveram esse problema. Em muitos desses casos, os pais eram desorganizados financeiramente, ou sofreram com vícios, nos quais gastavam dinheiro da casa, ou eram preguiçosos e desleixados com seus trabalhos. As consequências foram que essas crianças, quando adultas, se tornam ou extremamente gananciosas e avarentas, com um apego desproporcional ao dinheiro, ou também duplicaram comportamentos em relação ao uso do dinheiro, sempre em falta, se tornando pessoas que consomem demais, ou simplesmente não administravam adequadamente, ficando constantemente em dificuldades financeiras. 3.
Propósito (efeito da falta: sem direção, baixa autoestima, vulnerabilidade): O último aspecto essencial da paternidade, e creio que seja o mais importante, é o do propósito. Os pais possuem a grande responsabilidade de despertar no coração dos filhos um senso de propósito.
Aqui, vemos um papel de liderança sendo fundamental. Os pais devem inspirar no coração dos filhos um desejo de viver um futuro, gerar no coração deles a convicção de que eles não estão nesta terra por acaso, e de que há algo importante que eles devem fazer nesta vida. É muito mais do que apenas incentivar os filhos a estudarem, encontrarem uma profissão e trabalharem. É plantar no coração da criança de que elas foram criadas por Deus com um propósito e que elas possuem recursos, talentos, dons e habilidades que deverão usar para o cumprimento de um chamado.
Por muitos anos na história, os filhos herdavam as profissões dos pais, que eram normalmente transmitidas de geração a geração. Principalmente os homens, logo que entravam na adolescência, já começavam a ajudar seus pais em suas ocupações. Iam para roça, para ferraria, para sapataria e começavam a dar seus primeiros passos em alguma atividade laboral. O lado ruim dessa prática é que muitas pessoas, ao longo de toda a história, não puderam explorar seus talentos e habilidades individuais porque estavam, de certa forma, destinadas a um único caminho.
Porém, o lado bom dessa cultura é que logo cedo os filhos aprendiam a se tornar úteis e a dominar habilidades, forjando o seu caráter, desenvolvendo a sua personalidade e, especialmente, a responsabilidade e a maturidade.
Particularmente, acho que essa cultura da inclusão dos filhos nas ocupações geracionais era muito mais benéfica do que o que vemos hoje na nossa geração. O que vemos hoje são “adultescentes”, de 30 anos de idade, que moram com os pais, que já trocaram de curso Universitário mais de três vezes, que não lavam as suas roupas, nem fazem a sua comida e são sustentados pelos pais, porque ainda não encontraram a profissão que gostam.
O pai é responsável por inspirar seus filhos, seja com instrução, exemplo, ou até mesmo conduzindo seus filhos a aprenderem na igreja ou em algum ambiente onde ele receba esse tipo de ensino, para que eles entendam que a vida nesta terra precisa cumprir um propósito que é fazer Deus ser glorificado através daquilo que eles são capazes de fazer, e que as pessoas sejam servidas com dedicação, diligência e amor.
Esta, talvez, seja uma das principais marcas da nossa geração. A falta de propósito. A maioria das pessoas está perdida e vivem as suas vidas em uma rotina incessante, como quem caminha em círculos sem saber para onde está indo. Os pais precisam desenvolver a convicção em seus filhos, que eles não são um acidente e não existem apenas para caminhar por aí, respirando, consumindo recursos e ocupando espaço. Eles foram criados para acrescentar algo à vida neste mundo e não apenas para desfrutar.
Deus os criou com uma singularidade que os torna particularmente especiais e com isso, um propósito e uma missão a cumprir nesta terra. Viver esse propósito pelo qual vocês foram criados é o que realmente devemos chamar de sucesso.
- O IMPACTO DA MATERNIDADE
Como vimos anteriormente, a mulher foi criada por Deus com um propósito maravilhoso na formação da família. As mulheres são especiais e únicas, com competências e qualidades indispensáveis na educação dos filhos. Dentre todas, destacamos as essenciais: cuidado, afeto e sensibilidade. 1.
Cuidado: Quando o bebezinho sai da barriga da mãe, onde habitou durante todo o processo gestacional, é nela mesmo que ele encontra os recursos fundamentais que precisa para sobreviver. O leite materno fornecerá todos os nutrientes que aquele pequeno ser humano precisará, e é nos braços dessa mãe que o bebê desfruta de cuidado. A maternidade é linda! Como Deus foi perfeito em tudo.
No decorrer do desenvolvimento dessa criança o elemento cuidado ainda será essencial para sua formação, e é interessante como as mães possuem instintivamente condições muito superiores a dos homens para prover esse olhar atento às necessidades dos filhos. É clichê da parte das mães aquela frase quando os filhos estão saindo de casa com tempo frio: “não esquece o casaco”. Dificilmente você verá um homem lembrar disso.
Todo ser humano é carente de alguém que ofereça cuidado. Quando falo em cuidado me refiro a algo mais atencioso e diligente do que, por exemplo, a proteção e a provisão que a figura do pai deve dar. Falo sobre essa atenção às pequenas coisas do dia a dia, às pequenas provisões físicas e até mesmo emocionais.
Sempre achei interessante a passagem bíblica que diz assim:
apurada das mulheres se explica na forma que seus cérebros funcionam. Homens são mais práticos e objetivos, as mulheres mais sensíveis e subjetivas.
Na minha família há algo muito engraçado que sempre ocorre: a minha mãe sempre percebe que os filhos estão passando por alguma dificuldade. Na maioria das vezes, eu e meus dois irmãos podemos disfarçar, ou esconder, mas quando nossa mãe bate o olho em nós, de alguma forma, ela percebe que algo não está certo. Acredite ou não, muitas vezes já aconteceu de minha mãe sonhar que algum de nós estava com algum problema, e de forma despretensiosa, ela conta e, de repente, acaba se abrindo a situação que era realmente como ela havia sonhado.
Minha mãe não é a única. É próprio das mães esse nível de sensibilidade em relação aos filhos. Essa capacidade é importante, não somente no que diz respeito ao cuidado e a criação dos filhos, como também para desenvolver neles essa mesma capacidade de olhar para o mundo.
A principal diferença entre os seres humanos e todo o resto da criação é que nós somos os únicos que possuímos autonomia de consciência. Somos criaturas subjetivas. Não somos animais instintivos, previsíveis e totalmente práticos. O ser humano maduro precisa ser desenvolvido na capacidade de perceber aquilo que não está explícito e de discernir o que não está claro. Ser sensível não é ser frágil e melancólico.
Ser sensível é possuir um olhar atento e profundo a respeito dos movimentos da vida. Eespecialmente nos meninos, este papel da maternidade é fundamental para dar o equilíbrio perfeito, fornando os homens que serão bons pais e excelentes maridos.
A PATERNIDADE DE DEUS
O papel dos pais terrenos é importantíssimo na formação do ser humano, mas é inevitável que, por mais dedicados que sejam, as chances são grandes de falharem em algum aspecto. Diante disso, temos a provisão de uma Graça maior: a paternidade de Deus. O apóstolo Paulo faz uma declaração na carta aos Efésios, que diz:
Por essa razão, ajoelho-me diante do Pai,Efésios, capítulo 3, versículo 14
- UM PAI QUE DEIXA UMA HERANÇA: A segunda coisa que nós podemos destacar olhando pela perspectiva de que Deus é Pai é que o filho tem uma herança.
Não estou falando de uma herança meramente natural. Quando reconhecemos o nosso lugar e a nossa posição nEle como herdeiros, nós precisamos entender isso na perspectiva espiritual. A Bíblia diz que nós somos herdeiros de Deus e coherdeiros em Cristo Jesus (Romanos, capítulo 8, versículo 27). Essa expressão “co-herdeiros” significa que nós somos tão herdeiros quanto Jesus. É muito importante entender que essa herança não implica apenas algo que será experimentado na eternidade, mas também algo que pode ser desfrutado já aqui nesta vida.
- UM PAI QUE AMA: Em último lugar, quando reconhecemos que Deus é Pai, experimentamos o Amor que Deus nutre pelos seus filhos. Talvez a sua experiência com a maternidade e com a figura paterna pode ter sido a melhor do mundo. Talvez possa não ter sido tão boa, ou possa até ter sido a pior. A verdade é que você não se pode olhar para Deus a partir da sua experiência. Nós precisamos entender o coração amoroso de Deus como Pai em relação aos seus filhos. Este talvez seja considerado um dos principais versículos da Bíblia: